Name: Jorge

Bio: Jorge Bric é o crítico de arte do G7. Ele adora samba, possui formação acadêmica e já leu toda a obra de Machado de Assis. Também gosta de ir pra bares conversar sobre filosofia. Sua principal virtude, e é isso que o trouxe para o Bloguete, é sua sinceridade e capacidade de análise artística. Bric, não é nenhum dos atores do G7.

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    O Festival Que Não Ficou Pronto

    novembro 25th, 2009

    bric

    Há pouco mais de dois meses, a Revista Bravo! afirmou que o Festival do Rio, com apenas 10 anos, já é a principal premiação do cinema nacional, superando Brasília e Gramado. O Festival de Cinema de Brasília deste ano veio mostrar a razão disso.

    Logo na saída, os organizadores do evento deram indícios de que o festival, que teve seu auge nas décadas de 70 e 80, ainda não tem força para retomar o lugar que já foi seu. Na exibição de Lula – filho do Brasil, filme de abertura, mostraram falta de profissionalismo e de compromisso com o público brasiliense – que continua fazendo sua parte e lotando as sessões do festival -, reservando 800 dos pouco mais de 1000 lugares a políticos da cúpula governista, e levando os apreciadores da sétima arte a se amontoarem nas escadas.

    festivalNo fim de semana, a confusão continuou. Novamente, os brasilienses encheram a sala do Cine Brasília para acompanhar a exibição dos três curtas e do longa previstos para a tarde de domingo. E se decepcionaram outra vez, ao constatarem perplexos que Galinha Preta não seria exibido, recebendo a singela explicação de que o filme simplesmente não ficou pronto (???!!!). Ao menos, a equipe responsável pelo curta Senhoras teve tempo de fazer o seu discurso contra a Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que, por problemas de gestão, não consegue levar o dinheiro do Fundo de Apoio à Cultura a quem se propõe a transformar esse dinheiro em arte, enfraquecendo a produção local de cinema, que apesar disso, ainda tem conseguido fazer grandes trabalhos nos últimos anos.

    No fim das contas, aconteceu o previsto e o longa É Proibido Fumar, estrelado pela global Glória Pires, levou o prêmio Candango de melhor filme. O titã Paulo Miklos, que contracena com a atriz, e já havia levado a estatueta de ator revelação, no festival de 2001, por sua atuação em O Invasor, dessa vez levou o prêmio de melhor ator. Vem garantindo, com isso, seu espaço entre os bons nomes da dramaturgia brasileira, ao lado da já consagrada carreira musical. A direção do filme ficou por conta Anna Muyaert, vencedora do prêmio de direção em Gramado por Durval Discos, em 2002. No Júri Popular, venceu o documentário Filhos de João, o admirável mundo novo baiano, sobre a vivência única do grupo musical Os novos baianos. Merece destaque, ainda, O homem Mau dorme bem, do diretor Geraldo Moraes, bastante elogiado pelo público.

    Em resumo, o Festival de Cinema de Brasília tem seu público cativo e ainda é responsável pela apresentação de excelentes filmes, mas precisa de muito mais incentivo e dedicação, se quiser recuperar seus papel de principal mostra de cinema do País.

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    O Deus cruel e invejoso de Saramago

    novembro 13th, 2009

    bricNa música “admito que perdi”, Moska diz que sonhos são como deuses – quando não se acredita neles, deixam de existir

    Se o cantor estiver certo, e se a nova moda entre os escritores pegar, em pouco tempo o Deus único da cultura judaico-cristã deixará de existir, tendo em vista a quantidade de recentes publicações com a promessa de mudar a opinião daqueles (que não são poucos) que Nele acreditam.

    Entre elas, merecem destaque o Tratado de Ateologia, do filósofo francês Michel Onfray, e o best-seller Deus – um delírio, que vendeu mais de um milhão e meio de cópias apenas em 2006, ano do seu lançamento, sendo logo traduzido em mais de 30 países e conquistando o segundo lugar entre os livros mais vendidos da gigante Amazon. Tal sucesso se deve sobretudo à respeitabilidade do seu autor, o biólogo Richard Dawkins, referência mundial em estudos sobre os genes, o qual, em sua vertente ateísta, ganhou projeção com o documentário britânico A raiz de todos os males (The Root of All Evil?) escrito e apresentado por ele para expor os malefícios da religião. Aliás, é exatamente este o ponto em comum entre estas duas obras: a declarada intenção de demonstrar não apenas que Deus não existe e que religiões são ilusões, como também que o mundo estaria muito melhor sem elas.

    caimAgora é a vez do nobel de literatura José Saramago dar (novamente) a sua contribuição à causa, com o recém lançado Caim, livro que se segue ao A viagem do elefante, de 2008, e ao insosso As intermitências da morte, de 2005. Ao contrário deste, Caim é um livro que prende a atenção do início ao fim, tratando num tom jocoso as incongruências do Deus descrito no Velho Testamento, não raramente cruel e vingativo. O autor já havia confrontado a religiosidade cristã com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de 1991, em que mostra um Jesus menos deus e mais humano – de modo muito semelhante ao romance A última tentação de Cristo, de Nikos Kazantzakis, publicado em 1951 e adaptado para o cinema por Martin Scorsese, indicado ao Oscar na categoria melhor diretor por este filme em 1989.

    O livro parte de uma certa aliança feita entre Caim e o Senhor, após o assassinato de Abel, já que Deus teria assumido sua parcela de culpa pelo crime, decorrente do fato de sempre preferir as oferendas do irmão morto às de Caim, provocando a sua tristeza e inveja. O trato consistiria na não condenação de Caim pelo assassinato, o qual, em troca, vagaria errante pela terra, sem nunca encontrar a morte, o que o levaria a presenciar – e aqui começa de verdade a estória – todas as barbaridades cometidas por Deus, como pedir a um pai (Abrãao) que matasse o próprio filho (Isaac) para demonstrar a sua fé, ou devastar toda uma cidade (Sodoma), sem se preocupar com as crianças inocentes que viriam a sofrer os feitos dessa dizimação, mesmo que nada tivessem feito para merecer o castigo (“não é possível que vás fazer uma coisa dessas, senhor, condenar à morte o inocente juntamente com o culpado”, diz Saramago pela boca de Caim).

    Embora a temática seja pesada, o humor conferido pelo autor à obra torna a leitura agradável, o que não afastará, de modo algum, a repúdio daqueles que enxergam esse mesmo Deus de um modo completamente diferente do que foi retratado por José Saramago.

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    O Pequeno Burguês no Festival de Cinema de Brasíla

    novembro 4th, 2009

    bric De hoje até o dia 15, acontece o XI Festival Internacional de Cinema de Brasília. A programação deste ano traz, entre as mais de 80 produções, o aguardado e polêmico Anticristo, de Lars von Trier, o consagrado diretor de Dogville, e Nova York, I love you, segundo filme da série “cities of love”, em que diferentes diretores retratam histórias de amor em curtas-metragens. O primeiro foi Paris, Je t’aime e o próximo será Rio, eu te amo, que começa a ser rodado em 2010 e já tem a presença confirmada dos brasileiros Fernando Meirelles e José Padilha.

    Os filmes do Festival serão exibidos, como de costume, na Academia de Tênis, e alguns no CCBB -- Centro Cultural Banco do Brasil. Embora a estréia oficial tenha sido às 21 h, com o curta O teu sorriso e o longa alemão A fita branca, o festival teve início às 17 h, no CCBB, com O Pequeno Burguês, documentário brasileiro bastante simples, mas de grande sensibilidade – exatamente como o seu protagonista, Martinho da Vila.

    Marcelo D2, que, de certo modo, foi um dos responsáveis pelo revigoramento do samba nos últimos anos, ao fazer a sua mistura com o hip hop, presta homenagem, em uma de suas músicas, aos “verdadeiros arquitetos da música brasileira”, os “poetas-operários”, que vivem do samba e dele retiram seu sustento. É nesse conceito que se enquadra Martinho da Vila, um operário do samba que desde 1969 lança pelo menos um disco por ano, sendo responsável por inúmeros “hinos” do gênero, como Disritmia, Casa de Bamba, Madalena do Jucu e Mulheres. Exatamente por ter sido o primeiro desses “operários” a sair da favela e levar o samba a todas as partes do mundo, abrindo espaço para os que vieram depois, como Beth Carvalho, Zeca Pagodinho e Fundo de Quintal, a importância de Martinho para a música brasileira não encontra paralelos. E não só por isso é digno de reconhecimento. Sem precisar levantar bandeiras, realizou muito pelo povo negro, promovendo um efetivo laço do Brasil com países africanos, o que o tornou, não por acaso, embaixador honorário de Angola. Aliás, é dele o samba-enredo Kizomba, A Festa da Raça, uma exaltação à cultura negra que levou a Vila Isabel ao título de campeã dos desfiles das Escolas de Samba do Rio em 1988, numa exibição tida por muitos como a mais memorável de toda a história dos desfiles.

    A maior contribuição do músico, no entanto, talvez seja simplesmente a figura do “bom malandro” que ele representa, de sorriso aberto, voz tranqüila e que busca levar a vida “devagar devagarinho”. Na semana passada, lembrei o quanto é importante parar um pouquinho às vezes para “ver a banda passar cantando coisas de amor”. É o mesmo sentimento que Martinho da Vila desperta, o que não significa de modo algum taxá-lo, com seus mais de 30 discos lançados e 12 livros publicados, de preguiçoso. Significa apenas que a vida não precisa ser uma fonte inesgotável de estresse. Conforme conta seu filho Tunico no documentário, a grande lição que ele lhe ensinou foi a de “viver bem”. Porque, no fim das contas, é isso que realmente importa.

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    Histórias de canções de Chico Buarque

    outubro 28th, 2009

    bric

    A revista Rolling Stone deste mês, que traz, em edição especial, as 100 melhores músicas brasileiras, elegeu Construção a melhor de todas. E fez muito bem. Seu compositor, como bem descreveu Caetano, “é a coisa mais linda”, sem dúvida o maior músico brasileiro vivo, seguido talvez por Jorge Ben (autor da tantas vezes regravada Mas que nada, que aparece em quinto lugar no ranking da revista).

    Construção é uma música completa. Sua letra alia crítica social a uma experiência formal absolutamente feliz, e a melodia, brindada com os  arranjos do maestro tropicalista Rogério Duprat, parece externalizar o que a letra diz. Com o álbum que leva o mesmo nome, Chico Buarque “chegou próximo da tão falada unanimidade, recebendo elogios e críticas de todas as tendências”, conforme escreveu Wagner Homem, no recém lançado Histórias de cançõesChico Buarque, que se dedica exclusivamente a revelar os bastidores de suas composições.

    O livro traz ao público pequenas histórias sobre como andava a vida de Chico à época em que criou seus principais trabalhos (entre músicas e peças), e também sobre como andava a vida do País nesses momentos, fazendo, com isso, uma singela retrospectiva de nossa história recente.

    chico Conta, entre uma infinidade de pequenas histórias, que Chico se projetou nacionalmente ao musicar a peça Morte e Vida Severina, encantando o próprio João Cabral de Melo Neto, que antes se opusera à encenação de seu poema; que, para atender a uma encomenda de Nara Leão, assumiu pela primeira vez o papel feminino em uma música (Com açúcar, com afeto), exercício que se tornaria mais tarde uma de suas marcas; que os atores de sua peça Roda Viva foram agredidos em pleno palco pelo Comando de Caça aos Comunistas; que a música Carolina, composta “nas coxas” para evitar uma briga judicial com a rede globo, acabou lhe rendendo vários aborrecimentos, como uma rusga com o amigo Caetano; que ele não estava presente quando Sabiá, feita em parceria com Tom, recebeu uma tremenda vaia, fazendo o maestro chorar; que Apesar de você, sua primeira música realmente de protesto, foi rapidamente tirada de circulação pelo regime militar; conta até como Chico evitou que Vinicius de Moraes transformasse sua Valsinha numa “valsa hippie”, além de muitas outras deliciosas passagens da vida do artista.

    Em resumo, o livro é perfeito pra quem gosta de música brasileira, fluindo, do início ao fim, como uma leitura leve e agradável.

    De todas essas as histórias contadas pelo autor, talvez a mais expressiva seja a que envolve a vitória de A Banda no II Festival de Música Popular Brasileira. Embora alguns a tenham enxergado como uma canção alienada, numa época em que se exigia engajamento, como bem expôs Wagner Homem, a verdade é que a sua crítica sutil à truculência do regime militar soa mais pesada do que os discursos panfletários da época. Ao falar sobre como uma cidade parou pra ver a banda passar, mostrou, na verdade, como as pessoas andavam carentes de um pouco de amor. Narra o livro que o escritor Nelson Rodrigues, ao ouvir a canção, sentiu vontade de sair de casa, sentar-se no meio-fio e começar a chorar.

    A mensagem de Chico ainda ecoa (talvez até com mais força) na sociedade de hoje, também marcada pela brutalidade. Não a brutalidade da ditadura, mas uma brutalidade silenciosa de indiferença, de insensibilidade, de solidão… a brutalidade de uma sociedade que vem perdendo a capacidade de ficar perplexa, como bem definiu Eric Fromm.

    Pedindo desculpas ao leitor, resolvi me estender um pouquinho esta semana e trazer um trecho do que Drummond escreveu sobre A Banda, em uma crônica integralmente reproduzida no livro de Wagner Homem. É que precisamos parar um pouquinho para ler sobre as coisas de amor.

    O jeito, no momento é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de  amor, andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize,  corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine  o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o que mais estamos vivendo ou  presenciando.

    Viva a música, viva o sopro de amor que a música e a banda vêm trazendo,  Chico Buarque de Holanda à frente, e que restaura em nós hipotecados  palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda de sonhos, que o desamor puiu e lixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó do ar, na falta de ar.

    Coisas de amor são finezas que se  oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las e distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área da nossa vida particular; abrange terrenos infinitos, nas  relações humanas, no país como entidade social carente de amor

    E se o que era doce acabou,  depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.


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    Qual o seu pedido? – A arte (ou não) de improvisar

    outubro 21st, 2009

    bric Na semana passada, fui ao teatro dos bancários ver Qual o seu pedido, dos Anônimos da Silva, em cartaz       desde o dia 17 de setembro em quintas-feiras alternadas. O show apresentado é conhecido como “teatro esporte”,  ou “match de improvisação”, e consiste basicamente na divisão do pequeno elenco em dois grupos, que recebem do público a idéia de um cenário imaginário e de uma estória a ser contada, tendo então que criar imediatamente a cena. Tal gênero de teatro surgiu na década de 60, conquistando fama mundial com a série de TV norte-americana “Whose Line Is It Anyway?”, que, por sua vez, surgiu da série britânica de mesmo nome, apresentada nos anos 90.

    No Brasil, o estilo ganhou projeção há pouco, com a Companhia Barbichas de Humor. Os vídeos do grupo, que esteve há alguns dias em Brasília, são um fenômeno de visitas no youtube, com mais de quatro milhões de acessos por mês, em especial por conta da constante integração de convidados famosos ao elenco, como Rafinha Bastos e Marcelo Taz, do CQC.

    O grande mérito desse tipo de espetáculo é que será sempre divertido, seja pelo humor que os atores conferem ao interpretar a cena, seja por não conseguirem desenvolver o que foi pedido, o que não deixa de ser engraçado. A segunda vantagem é que a cada semana inevitavelmente haverá uma peça diferente.

    No entanto, entre fazer uma performance divertida e demonstrar talento para o improviso há uma distância enorme. Porque o improviso nos palcos não significa apenas encenar algo que não foi ensaiado. É preciso muito mais. É preciso, por exemplo, que esse “algo”, além de não ensaiado, seja imprevisto para o público. Por mais contraditório que pareça, não é fácil fazer o imprevisível quando se improvisa. Poucos são os atores que conseguem criar algo realmente inteligente de uma idéia oferecida segundos antes, sejam eles “barbichas do humor”, sejam “anônimos da silva”. Entre estes, um dos destaques da última apresentação foi o ator Saulo Pinheiro, que não hesitou em nenhuma cena, sempre preparado para fazer um comentário criativo e engraçado. Mas quem realmente toma conta do palco, do início ao fim da peça, é Edson Duavy, revelando um raro talento para esse tipo de comédia.

    Do condutor do espetáculo, Leônidas Fontes, não se pode dizer o mesmo. Quando pediu que alguém da platéia narrasse uma estória para ser encenada, a voluntária foi ninguém menos que a nova musa da música brasiliense Renata Jambeiro. A reação do público foi entoar o famoso “Canta! Canta!”, e ela, naturalmente, fez o seu charme. Ao mestre de cerimônias cabia persuadi-la a participar do espetáculo, mas acabou permitindo que a cantora deixasse o tablado sem dar sequer uma palhinha. É claro que ele não esperava a presença no palco de uma artista distinta dos membros da sua trupe, mas não custava nada improvisar um pouquinho…

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    Bastardos Inglórios – a Fábula de Quentin Tarantino

    outubro 14th, 2009

    bricNo último fim de semana, chegou às telas brasileiras a nova pérola de Quentin Tarantino, cuja renda com bilheteria já ultrapassou os 120 milhões de dólares apenas nos cinemas norte-americanos. Além de ser o mais lucrativo, Bastardos Inglórios é também o filme mais maduro do diretor de Pulp Fiction e certamente a consagração definitiva do seu estilo, que já nasceu original e inconfundível, com Cães de Aluguel -- seu primeiro longa, de 1992. Agora é a vez dos “cães judeus”, como foram chamados por um dos personagens.

    No curta-metragem brasileiro “Tarantino’s mind” (imperdível, por sinal), estrelado por Seu Jorge e Selton Melo, o personagem deste, ao falar sobre Tarantino e Kill Bill, conclui: “eu sabia que quando tivesse moral, ele ia vir com um filme desses de luta, estilo chineses voadores”. Podemos dizer mais. Além de um filme sanguinário no estilo chinês, trazido à tona com Kill Bill, não poderia faltar ao diretor uma incursão ao contexto mais sangrento do cinema: os filmes sobre a segunda guerra. E isso foi feito agora.

    O longa conta a estória de um pequeno grupo de soldados americanos, denominados “bastardos”, cuja missão é perseguir e matar nazistas, da forma mais violenta, dolorosa e brutal possível. É um primor. Tem tudo que se espera de um grande filme: diálogos precisos, atuações fabulosas e cenas antológicas. Aliás, todos esses ingredientes são mostrados logo no início, quando o vilão Hans Landa, coronel do exército alemão, conhecido como “o caçador de judeus”, é apresentado ao espectador, numa cena em que consegue, com muita frieza e cinismo, persuadir um camponês francês a entregar à morte os judeus que escondia em sua casa. O personagem é interpretado por Christoph Waltz, em uma atuação no mínimo brilhante, que certamente lhe renderá o Oscar. Do outro lado, está o líder dos “bastardos”, o Tenente Aldo Raine. Apelidado de “o Apache”, é encarnado por um Brad Pitt intencionalmente “canastrão”, numa interpretação também digna de aplausos.

    Bastardos Inglórios é uma fábula, que recria a história para atender a um desejo coletivo (obviamente não confessado) de ver sofrimento no rosto dos nazistas, que tanta dor provocaram. Uma fábula deturpada pela marca do diretor -- a violência gratuita, exagerada e, por isso mesmo, cômica ao seu modo. A brutalidade dos “bastardos” não encontra limites, e todas as cenas foram filmadas com absoluta precisão, para que o espectador deguste cada segundo dessa intensa crueldade.

    Bon appétit!

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    Crítica do Filme Salve Geral – Oscar?

    outubro 8th, 2009

    bric

    Na semana passada, falei sobre a crise de criatividade da Rede Globo e a  internauta Renata fez um comentário sobre como ela e seus amigos sentem falta dos programas da década de 80. Entre eles, havia a Armação Ilimitada, série voltada para o público jovem que nada tem a ver com Malhação ou Rebelde. Filmada em formato semelhante ao dos vídeoclipes que começavam a virar febre, a série mostrava as aventuras de Juba e Lula, carregadas de humor anárquico, esportes radicais e cenários de baixo orçamento, narradas pela DJ Black Boy, que fazia uma mistura de rap com locução de rádio.

    A namorada dos dois heróis (isso mesmo, ao mesmo tempo) era interpretada por Andréa Beltrão, que, mesmo já tendo participado de filmes como Bete Balanço, de 1984, e de algumas novelas, começou a ganhar projeção ali. Agora, a atriz protagoniza o longa Salve Geral, que acaba de chegar às telas de cinema e será o representante brasileiro na corrida pelo Oscar.

    O filme fala sobre a onda de violência que tomou o país no fim de semana do dia das mães de 2006, promovida pela organização criminosa PCC – o Primeiro Comando da Capital. A ação do grupo, em represália a transferência de alguns de seus líderes para o presídio de Presidente Venceslau, consistiu em rebeliões simultâneas em 73 presídios e ofensiva generalizada na cidade de São Paulo, com ataques a postos policiais, ônibus, corpos de bombeiros, bancos e lojas. Os resultados foram o pânico generalizado e uma conta de 128 mortos, entre presos, suspeitos, policiais e civis.

    Andréa Beltrão faz o papel de uma mãe que, sem apoio familiar ou financeiro, na tentativa desesperada de ajudar o filho preso, envolve-se com integrantes da organização criminosa, que dita as regras a serem seguidas pelos detentos e criminosos filiados ao “partido”.

    É ela quem realiza a cena emblemática do filme, no momento em que cruza, sozinha, as ruas vazias de São Paulo. A cidade que nunca para havia parado.

    No entanto, Salve Geral dificilmente chegará ao Oscar. Depois de Cidade de Deus, Carandiru, Tropa de Elite e Última Parada 174 (que também tentou concorrer a estatueta e sequer foi selecionado), a temática da guerra entre polícia e crime organizado, cada um com suas regras e moral próprias, começa a ficar saturada. Isso sem contar o excelente documentário Notícias de uma guerra particular, de 1999, pioneiro na exposição cinematográfica da violência urbana brasileira. Aliás, um dos entrevistados do documentário é exatamente o Capitão Rodrigo Pimentel, que seis anos depois escreveria o livro que dera origem a Tropa de Elite (e agora a Tropa de Elite 2, que começa a ser filmado em janeiro). Embora Salve Geral seja um bom filme, o enredo não impressiona mais, limitando-se a seguir um modelo que vem se tornando o lugar comum do cinema nacional, desde o sucesso inesperado – e merecido! – de Cidade de Deus.

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