As Formigas Canibais

Era uma vez o formigueiro.

Parecia um mísero cupinzal, redondo como o planeta Terra, mas não fazia volume, um submundo embaixo da t(T)erra. Mais de quilômetros de extensão de uma cidade misteriosa e fechada. Formigas que trabalham para formigas, formigas que comem formigas.

Formigas canibais, poucas, dominantes, aceitas e escolhidas pelas outras formigas, a maioria que trabalha, vai buscar folhas e demais guloseimas, corre riscos e deixa sinais químicos assinalando o caminho para que outras formigas também alienadas sigam o torpor de um caminho aparentemente invisível.

Formigas que se alimentam de formigas, formigas que não protegem a prole, que não cuidam da abelha rainha, apenas formigas que trabalham para formigas canibais. As malignas e minúsculas formigas canibais. Cercadas por seguranças e diplomatas que mantêm as mais belas côrtes com cupins espanhóis e lacraias colombianas. Formigas dominantes, formigas que se alimentam de formigas e, enquanto houver formigas, formigas gordas.

Formigas canibais, em seus ternos com bótons, formigas irascíveis, formigas que comem formigas.

Um belo dia, algumas formigas normais decidem comer outra formiga para experimentar como é. Devido ao comportamento de seguir alienadamente os sinais químicos deliberadamente liberados no caminho das formigas, outras começam a se alimentar de formigas, até que todas decidem alimentar-se, umas das outras. Formigas canibais que se comem mutuamente até a extinção completa e absoluta de todas aquelas formigas canibais.

Canibalizam-se todas e, quando todas estão por demais canibalizadas, canibalizam os ovos e a formiga rainha. E o formigo rei, e os cupins espanhóis e as lacraias colombianas.

E foi-se de uma vez o formigueiro.